Em 15 de maio de 2001, uma sequência de falhas operacionais transformou uma simples manobra ferroviária em um dos episódios mais impressionantes da história das ferrovias norte-americanas. A locomotiva CSX nº 8888, apelidada de "Crazy Eights", percorreu aproximadamente 105 quilômetros completamente desgovernada, atingindo velocidades de até 85 km/h, enquanto puxava um trem de carga composto por 47 vagões, dois deles carregados com fenol fundido, uma substância tóxica utilizada na fabricação de plásticos, resinas, tintas, medicamentos e diversos produtos quÃmicos.
O incidente ocorreu no estado de Ohio, nos Estados Unidos, mobilizou centenas de profissionais da CSX Transportation, equipes de emergência e autoridades locais, e anos depois serviria de inspiração para o filme "Incontrolável" (Unstoppable), lançado em 2010.
Na manhã de 15 de maio de 2001, um maquinista da CSX realizava uma manobra de rotina no Pátio Stanley, em Walbridge, Ohio, um dos principais pátios ferroviários da empresa na região de Toledo.
A tarefa consistia em deslocar uma composição do trilho K12 para o trilho D10, onde o trem seria preparado para seguir viagem. A composição era formada por 47 vagões, sendo 25 vazios e 22 carregados. Entre as cargas estavam dois vagões-tanque contendo milhares de litros de fenol fundido, produto altamente perigoso em caso de vazamento.
Durante a movimentação, o maquinista percebeu que um desvio encontrava-se desalinhado. Como os trilhos estavam molhados pela chuva e acreditando que não conseguiria parar o trem antes do Aparelho de Mudança de Via (AMV), decidiu descer da locomotiva para alinhar manualmente o desvio e embarcar novamente logo em seguida.
Essa decisão, aparentemente simples, deu inÃcio a um dos maiores incidentes operacionais da história ferroviária dos Estados Unidos.
O erro que colocou o trem fora de controle
Antes de deixar a cabine, o maquinista acionou apenas o freio pneumático independente da locomotiva, procedimento comum durante manobras dentro do pátio. Como os freios pneumáticos dos vagões não estavam conectados à locomotiva, apenas os freios da própria locomotiva permaneciam atuando.
Na tentativa de reduzir ainda mais a velocidade, ele procurou acionar o freio dinâmico, sistema que utiliza os motores de tração como geradores para desacelerar o trem. Entretanto, devido a uma sequência incompleta de comandos no sistema de controle das locomotivas EMD da época, o freio dinâmico não foi efetivamente selecionado.
Na prática, o acelerador acabou permanecendo na posição 8, potência máxima da locomotiva.
Em vez de desacelerar, a locomotiva começou a acelerar continuamente.
Quando percebeu o erro, o maquinista tentou retornar à cabine enquanto o trem ganhava velocidade. Porém, não conseguiu subir novamente. Ele foi arrastado por aproximadamente 24 metros, sofrendo apenas cortes e escoriações leves.
Sem ninguém em seus controles, o trem deixou o pátio ferroviário e passou a percorrer a linha principal completamente desgovernado.
À medida que a velocidade aumentava, a situação tornava-se cada vez mais preocupante.
Além dos riscos de colisão, havia grande temor de que o trem descarrilasse em alguma curva ou área urbana, principalmente devido à presença dos vagões carregados com fenol.
Diversas tentativas de interromper a fuga foram realizadas.
Foi utilizado um descarrilador portátil, equipamento projetado para retirar veÃculos ferroviários dos trilhos em situações de emergência. Contudo, a força da composição simplesmente lançou o equipamento para fora da via.
Em outra tentativa, policiais dispararam contra o botão vermelho de corte de combustÃvel da locomotiva. Os tiros, porém, atingiram apenas a tampa do tanque de combustÃvel. Mesmo que acertassem o botão, o sistema exigia que ele permanecesse pressionado durante alguns segundos para desligar o motor, algo impossÃvel naquela situação.
Enquanto isso, centros de controle monitoravam constantemente a posição do trem, organizando uma estratégia para pará-lo antes que ocorresse uma tragédia.
A estratégia que salvou a situação
A solução encontrada foi utilizar outro trem que seguia em sentido contrário.
A locomotiva CSX nº 8392, também uma EMD SD40-2, foi desacoplada de sua composição e passou a perseguir o trem desgovernado.
Na cabine estavam:
- Jess Knowlton, maquinista com 31 anos de experiência;
- Terry L. Forson, condutor com cerca de um ano de serviço.
A missão era extremamente delicada: aproximar-se lentamente do trem em movimento, acoplar ao último vagão e utilizar os freios dinâmicos para reduzir sua velocidade.
A operação foi um sucesso.
Após o acoplamento, a locomotiva de apoio começou a frear gradualmente toda a composição.
Enquanto isso, outra locomotiva, a CSX nº 6008 (EMD GP40-2), permaneceu posicionada mais à frente da linha para uma eventual tentativa de conter o trem pela dianteira. Felizmente, sua intervenção não foi necessária.
O momento decisivo
Quando a composição reduziu sua velocidade para cerca de 19 km/h, o chefe de trem da CSX, Jon Hosfeld, correu ao lado da locomotiva em movimento.
Em uma ação que exigiu extrema coragem e precisão, ele conseguiu subir na locomotiva nº 8888, acessar a cabine e desligar o sistema de tração.
Poucos instantes depois, o trem finalmente parava nas proximidades da passagem de nÃvel da Ohio State Route 31, ao sudeste de Kenton, Ohio.
Após quase duas horas de viagem descontrolada e cerca de 105 quilômetros percorridos, o incidente chegava ao fim sem vÃtimas fatais e sem derramamento da carga perigosa.
As consequências
Apesar do desfecho positivo, a locomotiva sofreu danos significativos.
As sapatas de freio ficaram completamente destruÃdas pelo calor, já que permaneceram acionadas durante praticamente toda a fuga.
A CSX Transportation nunca divulgou publicamente a identidade do maquinista responsável pela operação nem informou quais medidas disciplinares foram adotadas após a investigação.
O caso tornou-se referência em treinamentos de segurança operacional e contribuiu para aperfeiçoamentos em procedimentos de manobra e nos sistemas de controle das locomotivas.
Embora o longa utilize liberdade criativa para tornar a narrativa mais dramática, sua principal inspiração foi justamente o incidente da CSX 8888, um caso real que demonstrou tanto os riscos das operações ferroviárias quanto a competência e o preparo das equipes que conseguiram evitar um desastre de grandes proporções.
Conclusão
O incidente da CSX 8888 demonstrou como uma sequência de pequenas falhas pode resultar em uma situação de grandes proporções. Ao mesmo tempo, evidenciou o preparo, a experiência e a coragem dos profissionais ferroviários que conseguiram controlar um trem desgovernado sem provocar uma tragédia.
Mais de vinte anos depois, a história da "Crazy Eights" continua sendo estudada por especialistas, lembrada por ferroviários em todo o mundo e considerada um dos acontecimentos mais extraordinários da operação ferroviária moderna.
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