Malha ferroviária de SP recebeu instalação de passagem suspensa para a fauna. Animais como macacos-pregos foram flagrados usando a travessia.
Trechos da malha ferroviária de São Paulo receberam a instalação de uma passagem suspensa, com o objetivo de proteger a fauna e ampliar a segurança da biodiversidade da região. As estruturas, conhecidas tecnicamente como pontes de dossel, são instaladas sobre a linha férrea para conectar as copas das árvores e permitir a travessia segura de animais sem a necessidade de decida ao solo.
Os pontos de instalação foram definidos a partir de estudos de paisagem e conectividade ecológica, com duas estruturas em Fernando Prestes, no interior paulista, três em Cotia, na região metropolitana, e duas no trecho do Parque Estadual da Serra do Mar, entre São Vicente, no litoral, e a capital paulista.
O monitoramento da travessia, iniciado no final de 2025, já registrou flagrantes inéditos de grupos de macacos-prego, patos-do-mato e jacurutus – a maior coruja do Brasil – utilizando a passagem suspensa.
Ao todo, a Rumo, operadora de ferrovias de cargas, instalou 11 pontes de dossel no Brasil. Além das sete em São Paulo, há três estruturas novas em Cassilândia, no Mato Grosso do Sul, e uma unidade em São Simão, Goiás.
Passagem suspensa em ferrovias
A coordenadora do Programa de Proteção à Fauna da operadora, Tatiane Bressan Moreira, ressalta que as passagens superiores fazem parte das iniciativas da companhia voltadas à proteção das espécies ao longo da malha ferroviária.
“As pontes de dossel ajudam a reduzir o risco de atropelamentos e aumentam a segurança tanto para os animais quanto para a operação ferroviária. O registro do uso das passagens pelas espécies mostra que a solução está funcionando e cumprindo sua função”, disse.
O planejamento das instalações considerou características específicas de cada trecho da ferrovia, como relevo, altura das estruturas e condições de segurança da operação ferroviária.
Seis novas travessias devem ser instaladas em São Paulo ainda em 2026, sendo três em Bauru, mais duas no Parque Estadual Serra do Mar e mais uma em Cotia.
Viadutos Vegetados
No Pará, dois viadutos vegetados foram implantados no ramal ferroviário de 101 quilômetros que liga uma das minas de minério de ferro da Vale, em Canaã dos Carajás, à Estrada de Ferro Carajás, em Parauapebas. Eles foram concluídos em 2017 por exigência do processo de licenciamento ambiental, sendo os primeiros instalados no país. As duas estruturas foram cobertas com gramíneas e receberam pequenos arbustos de espécies da região para reproduzir o ambiente do entorno, além de cercas direcionadoras.
Um dos viadutos para passagem de animais silvestres que foram construídos no ramal ferroviário que liga a mina em Canaã dos Carajás a Parauapebas, no Pará. Foto: Vale/divulgação.
Os dois viadutos integram um conjunto de estruturas que inclui também 30 passagens de fauna de outros tipos, como as subterrâneas. A Vale informou ter registrado 2.194 ocorrências de travessias de animais nesse sistema de passagens entre 2016 e 2019.
O biólogo e pesquisador em impactos de ferrovias sobre a fauna, Rubem Dornas, lembra que as linhas férreas podem ter um efeito barreira ainda maior para animais de pequeno porte. Além de a clareira ser um inibidor para animais de algumas espécies, os trilhos são obstáculos verticais que podem ser intransponíveis para cágados, jabutis e alguns anfíbios, por exemplo. “Os animais encontram os trilhos e, na tentativa de atravessar, podem ter que percorrer vários quilômetros até descobrirem um local com espaço entre a brita e trilho ou uma passagem de nível, que geralmente é para carros. Nesse trajeto, suspeita-se que um grande número deles morra por inanição ou superaquecimento”, explica.
Dornas, que faz parte da Rede Brasileira de Especialistas em Ecologia de Transportes (REET Brasil), afirma que a malha ferroviária brasileira é antiga, sendo raras as linhas com sistema de redução de impactos como o efeito barreira e os atropelamentos.
Passagem para Tartarugas
As primeiras passagens projetadas para quelônios (Tartarugas) em ferrovias surgiram de uma parceria entre a Greenbush Line Commuter e a Massachusetts Bay Transportation Authority, em 2003. Diversos estudos testaram e implementaram diferentes protótipos para travessia desses animais. No Brasil, os primeiros testes iniciaram no Rio Grande Sul, em 2016, com a instalação de canaletas de zinco em zonas mapeadas como críticas de fatalidades para tigres-d’água (Trachemys dorbigni), uma espécie de tartaruga de água doce, endêmica do extremo sul do país.
Primeiro protótipo brasileiro de passagem de quelônios instalado em uma ferrovia no Rio Grande do Sul – Foto: Rumo Logística
De 2016 para cá, os designs dos protótipos brasileiros foram aperfeiçoados, considerando uma gama de fatores, como a utilização de outros tipos de materiais, a necessidade de sinalização da via para as equipes de manutenção e as particularidades das diferentes espécies encontradas nas demais regiões do país.
Novos designs de canaletas e placa sinalizadora instaladas em uma ferrovia no Rio Grande do Sul: espécie-alvo é o tigre-d’agua – Foto: Rumo Logística
Todavia, sabemos que diferentes espécies possuem diferentes necessidades e, no ano de 2018, um teste realizado em uma ferrovia situada no Tocantins comprovou que quelônios terrestres, como o jabuti-piranga (Chelonoidis carbonarius), na maioria das vezes, evitam descer em canaletas que apresentem degraus ou declives acentuados. Para esse grupo, portanto, é necessária a instalação de uma rampa para encorajar a descida e a evasão sob trilhos.
Protótipo de passagem para jabutis instalado na Ferrovia Norte-Sul, no Tocantins. A borracha utilizada para revestimento e formação da rampa é proveniente da troca de correias transportadoras em terminais ferroviários – Foto: Rumo Logística
Os primeiros resultados obtidos após a instalação dessas estruturas mostraram que tanto o tigre-d’água, quando o jabuti utilizaram suas passagens de forma adequada, conforme flagrante realizado pela concessionária responsável por essas ferrovias:
Tigre-d’água utilizando passagem – Vídeo: Rumo Logística.
Jabuti utilizando a passagem - Vídeo: Rumo Logística.
Nota-se que a instalação desse tipo de passagem em ferrovias não necessita de grandes investimentos, possui baixa complexidade e facilidade de instalação e manutenção. Os experimentos com protótipos de passagens para quelônios têm sido promissores e diversos testes para comprovação da efetividade estão em andamento. Acredita-se que outras espécies de menor porte também possam se beneficiar com a presença dessas estruturas ao longo da via, seja para evasão ou para incremento da conectividade.
Fontes:
VEJA TAMBÉM;
- Sistema Ferroviário Brasileiro
- Rumo Logística S.A.
- Vale S.A.
- Estrada de Ferro Carajás
- Ferrovia Norte-Sul
- Ferrovias de SC movimentaram mais de 6,1 milhões de toneladas em 2025
- Cresce o debate sobre o destino das ferrovias no RS
- O que ainda trava a ferrovia que pretende revolucionar SC
- VLI avalia expandir atuação como agente transportador em outras ferrovias, diz CEO
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